Décio Galina

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A semana em que meu caçula parou de falar e passou fome

Décio Galina

06/01/2018 08h00

A cara da estomatite: bochechas inchadas e olhar de perplexidade

Felipe, o caçula de 3 anos, abriu 2018 com duas limitações que estão o deixando maluco: não consegue falar, nem comer. Tamanha a dor causada por cerca de um milhão de aftas que brilham no céu da boca do moleque como estrelas no Deserto de Atacama. Prazer, estomatite – nem sabia do que se tratava (Nícolas, meu menino de 10 anos, nunca teve), e não pensei que o calvário se arrastasse por tantos dias.

De bico fechado, com dificuldade até para abrir a boca, ele lança um olhar de interrogação e de indignação, sem entender por que, de repente, teve que abrir mão das coisas que mais gosta na vida. Normalmente, Felipe fala como uma matraca desde o instante que abre o olho na cama e grita: “Tá dia! Vamos pra sala!” (mesmo que seja 6 e pouco da manhã).

Entre os motivos que o fazem parar um pouco de falar estão a fome e a disposição de comer pratadas de arroz, feijão, purê, bife e brócolis. Tem noite que janta três vezes. De sobremesa, arremata um mamão (meio ou inteiro). Duas bananas também não é raro de acontecer. Queima o que come jogando bola, brincando sem parar, inventando que é pirata em embates de espada com o pai que podem durar horas.

Mudo, inerte e com um galo

Gosta também de contato físico, cócegas na barriga, luta rolando pelo chão. Estamos inclusive pensando em colocá-lo em algum esporte tipo caratê, kung-fu ou luta greco-romana (Carol, minha mulher e mãe do menino, já descartou o judô porque ela acha que quimono abre toda hora e fica desarrumado).

A imagem dele mudo, inerte e com fome ainda tem o agravante de um galo na testa que mais parece uma bola de tênis amarela, resultado de um pouso mal calculado, pulando nos bancos da Choperia (me recuso a chamar esse lugar de Comedoria…) do Sesc Pompeia. Nesses dias difíceis, Felipe segurou a onda, chorou só nos ápices de dor quando não conseguiu comer nem sorvete e se virou na base do olhar, e do “hum-hum…”.

Ontem, dia em que completei 45 anos, tudo o que queria é que ele voltasse a conseguir comer alguma coisa. Assoprei velinhas em um bolo de chocolate recheado e ele não resistiu. “Vai doer o bolo, papai?”. “Não sei, filho, experimenta…” (quase um mantra pra vida toda). As mastigadas em câmera lenta trouxeram angústia à sala. “Consegui! Não doeu!”, e jogou os braços para cima como Dora faz nos desenhos (que ele adora assistir) ao cantar “Conseguimos!”. À tarde, mais uma rodada de coração acelerado: ele pediu para tentar comer arroz. O caminho da colher para a boca foi acompanhado com a tensão de uma torcida que assiste ao jogador indo bater pênalti.

Foi grande a expectativa na primeira colherada de arroz depois quatro dias de estomatite

Ao engolir e arregalar os olhos, como se dissesse “estou prestes a retomar a vida normal, me aguardem…”, respirei aliviado e mal comemorei o gol. Só assim mudei a chavinha e saí para jantar com a mãe do menino, que também estava leve, voando sobre sapatos altos, vermelhos. É ótima a expectativa para os próximos 45 anos. Entro em campo mais do que aquecido para esse segundo tempo que promete ser empolgante.

Sobre o autor

Paulistano de 1973, Décio Galina fez jornalismo na Cásper Líbero no início dos anos 1990 – os computadores chegavam à faculdade na época em que ele suava para passar nos testes do curso de datilografia do Senac. Trabalhou com Caco Barcellos na pesquisa do livro “Rota 66”. Passou alguns meses na “Gazeta Esportiva” antes de ficar cinco anos de fortes emoções na editoria Geral do jornal “Notícias Populares” – foi de repórter policial a editor. Deixou a vida do crime na periferia e começou a editar a revista “Daslu”, na Trip Editora. Ficou na Trip de 2001 a 2017: 16 anos produzindo conteúdo para marcas como Itaú Personnalité, Mitsubishi, Pão de Açúcar, Natura, Gol Linhas Aéreas, entre outros. Já viajou bastante, dentro e fora do país, o suficiente para saber que o Brasil é seu lugar predileto.

Sobre o Blog

Como curtir a vida com dois filhos moleques (2 e 10 anos), viagens dentro e fora do Brasil e os caminhos de Bilhete Único em São Paulo -- já que o autor sabe dirigir revista, mas não dirige carros...

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